Opinião: moda e gênero

30.3.16 ∙ , , , ,
Em 2015, saiu a notícia que a conhecida e tradicional loja Selfridges (sim, aquela da maravilhosa série Mr. Selfridge que tem no Netflix!) não iria mais separar as roupas em seções masculinas e femininas, mas reunir todas as peças em um ambiente só, sem distinção.
Selfridges
A Selfridge não foi a única a desconstruir esse tipo de categorização, mas foi a precursora. Neste ano, a Louis Vuitton convidou o filho do ator Will Smith, o também ator e rapper Jaden Smith, para ser o garoto propaganda da marca, mas o detalhe estava no seguinte: ele iria ser o modelo da campanha feminina, usando saia, como sempre fez por aí, sem se preocupar com críticas. Outra marca que já iniciou este movimento foi a Melissa, com o modelo Flox Unissex, ela conseguiu cair no gosto dos meninos e das meninas, apesar da maioria dos consumidores ainda ser composto por mulheres.
Jaden Smith na camapnha feminina da Louis Vuitton

E aí diante destas notícias, eu fiquei pensando na relação entre moda e gênero e fui relembrar os textos sobre o assunto que havia visto na época da faculdade de Psicologia para refletir sobre esta questão.

Até o século XX, o determinismo biológico era o elemento usado como critério de distinção sexual entre homens e mulheres. Diante desta perspectiva, os homens ocupavam um posto de superioridade em relação às mulheres, por conta da sua estrutura física, assumindo o papel de provedor da família, enquanto as mulheres, consideradas frágeis, eram colocadas no espaço privado, submetidas às obrigações domésticas, cuidando dos filhos, limpando a casa e cozinhando.

Contudo, no século XX, em meio as críticas das feministas em relação à opressão sofrida pelas mulheres, teve início a discussão acerca do conceito de gênero. De forma bem resumida, o gênero se refere aos papéis sociais desempenhados pelos indivíduos, independente do sexo biológico. O gênero, ao contrário do referencial biológico, é algo dinâmico e suscetível aos fatores socioculturais.

Sabiamente, a moda percebeu isso e abriu a mente para enxergar que a separação das roupas em seções baseadas no sexo biológico não era o melhor critério de divisão. Afinal, o sexo não define quem você é. A campanha mais recente da C&A veio com esta proposta. Com a frase "Tudo lindo e misturado" e as palavras de ordem "Misture, Ouse e Divirta-se!" foi lançada a primeira coleção de roupas sem gênero da marca, encabeçada pelo vídeo a seguir:



Eu fui conferir de perto a nova coleção na C&A daqui da minha cidade (Aracaju) e confesso que não entendi onde estava este "lindo e misturado" (o Buzzfeed até publicou um post falando sobre isso). A proposta da coleção é não ter gênero, mas o manequim feminino usava saia e vestido, o manequim masculino usava jaqueta e calça. No site, há a divisão da nova coleção em masculino e feminino e o "lindo e misturado"ficou no vídeo...
C&A: Tudo lindo e misturado? (Imagem: Por A mais B)

Confesso que esta proposta de coleção sem gênero é interessante, mas muito delicada. Homens e mulheres têm corpos diferentes e a modelagem não pode ser a mesma. A Zara se propôs a fazer isso e o resultado não ficou bacana, o resultado foi uma coleção nas cores cinza e branco, com modelagens soltas, parecendo uma coleção de pijamas:
Zara Ungendered  (Imagem: Na Marino)

Mas aí fica a pergunta: então, o que fazer? Ao ler o texto de Nadia Schmidt sobre as marcas que estão fazendo roupas sem gênero, ela concluiu o seguinte:
Criar roupas sem gênero não significa colocar uma cartela cinza e branco pra todas as peças. Assim como as mulheres, existem homens que também querem usar muitas cores, flores, bichinhos e frases meigas. Mesmo que as roupas sejam para todos - homens e mulheres - é preciso pensar que as modelagens podem ser diferentes. As mulheres querem usar o que tem no guarda-roupa masculino, porém tem que cair bem no corpo (e o mesmo pros homens).

Parece complicado, mas fazer moda sem colocar rótulos é fácil: é só não criá-los.
Mas como assim "só não criá-los"? No sábado eu estive na loja Renner e estava vendo peças na seção feminina e vi um adolescente procurando um moletom "feminino" no tamanho G para que ele pudesse comprá-lo. Ao ver esta cena, pensei justamente nisso. Noto que muitos rapazes antes mesmo desta onda de roupas "sem gênero" já ousavam e compravam roupas de seções femininas, assim como eu já cansei de comprar camisas da parte masculina por terem estampas que eu gostava mais. 

E aí pensei que talvez a liberdade que estas marcas apresentam com esta onda do "sem gênero" fosse melhor representada ao lançar uma campanha em que homens pudessem montar looks com jaquetas e peças da seção feminina e vice-versa. Mostrando que o lance de separar em masculino e feminino é algo que facilita na busca da roupa e modelagem que você deseja, mas não é uma regra excludente de modo que homem só possa comprar na seção masculina e mulher só na parte feminina. Acredito que a liberdade de desconstruir isso não precisa ser legitimada por uma marca que vai lá e diz "ok, agora é uma coleção sem gênero e você pode usar peças femininas mesmo sendo homem", uma vez que isso já ocorria antes...

Rapazes magros, muitas vezes, acham melhor usar calça jeans feminina, porque o caimento é melhor. Mulheres, às vezes, preferem camisetas masculinas porque são compridas e vestem legal, assim como podem optar pela seção infantil masculina e achar o que procura. A liberdade está nisso, não é preciso derrubar o "masculino"  e "feminino" porque é um critério de organização necessário para orientar as pessoas ao saber qual modelagem se adequa melhor ao seu corpo, mas mostrar que não é regra: que você deve ser livre para usar o que quiser, da seção que quiser e como quiser. Reforçando um dos poucos acertos da campanha da C&A, na minha opinião, vamos encerrar este papo pensando no refrão que invoca:
Baby have you heard the news? / This is our time to be free / They're talking bout it on the streets / This is our time to be free ("Baby, você escutou as notícias? Esse é nosso momento de ser livre" "Eles estão falando sobre isso nas ruas, é o nosso momento de ser livre.)
E aí fica a pergunta: é tempo de ser livre, de misturar e ousar. Mas você acha que as marcas já conseguiram fazer isto?


P.S.: Critico a campanha da C&A, mas acho que a finalidade é positiva, só acho que não foi bem sucedida, assim como a da Zara. E reforço mais uma vez: todo o texto é baseado apenas na minha opinião, logo qualquer pessoa pode ficar livre pra concordar ou não. :)


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