A moda e seu papel social

17.10.16 ∙ , , , , , ,
Nestes últimos dias, duas amigas (Mari e Carmem, obrigada! ❤) me marcaram em duas matérias polêmicas sobre moda: uma envolvendo a marca Maria Filó e outra envolvendo o estilista da consagrada Moschino, Jeremy Scott. 

Coincidência ou não, as duas polemizaram pelo mesmo motivo: a escolha das estampas. A Maria Filó pôs à venda peças com estampa de mulheres escravizadas e o Jeremy Scott usou estampa de remédios controlados na sua nova coleção cápsula. A Maria Filó alegou que as estampas faziam referência à obra de Jean-Baptiste Debret. Scott, por sua vez, sempre busca associar diversão e moda em suas criações e pegou como gancho o termo coleção-cápsula e concretizou nas estampas.

Coleção cápsula da Moschino, por Jeremy Scott (Imagem: Gazeta do Povo)

Até aí alguns podem pensar "Ah, mas hoje em dia problematizam tudo, é só uma roupa!". Mas é isso que me faz pensar: é mesmo só uma roupa? 

Ainda hoje a moda não é tema frequente nas publicações acadêmicas e na sociologia e em outras áreas era enxergada como algo fútil e que, portanto, não serviria de pauta para a academia. Contudo, é inevitável desassociar moda e política, moda e economia, moda e cultura, moda e história, porque a moda acompanha a narrativa de uma sociedade, conta história e se faz presente conforme o contexto em que se insere. Pensando nisso, pensei na moda e seu papel social.

A sociedade vem discutindo sobre diversos assuntos: gênero, sexualidade, feminismo, homofobia, machismo, igualdade, representatividade, enfim, sobre temas que nos fazem repensar nossas posturas e atitudes perante os outros e até em relação a nós mesmos. A Avon, por exemplo, vem fazendo campanhas incríveis que têm empoderado as mulheres, feito com que se aceitem como são e questionado barreiras sobre o que é masculino e feminino, o corpo ideal, o tal padrão de beleza que ainda é imposto, mostrando o que é representatividade. Estamos vivendo um momento muito rico em relação a isso, com questionamentos que fazem com que as regras sejam discutidas e a moda tem sido uma forte aliada.

A partir do momento que a moda abre espaço nas passarelas, nas capas de revista, catálogos e editoriais para modelos com diferentes tipos de beleza, uma porta se abre para que pensemos sobre o conceito de beleza, por exemplo. Por que o belo é só o magro, o cabelo liso, o alto, os olhos claros? 

No entanto, quando a moda se isenta de discutir ou ignorar fatos preocupantes na sociedade como escravidão (tão recorrente e presente na moda, infelizmente) e naturaliza em uma estampa um monte de comprimidos, este papel social parece ser deixado de lado.

Estampa polêmica da Maria Filó (Imagem: Facebook)
Hoje em dia várias pessoas apresentam vício em medicamentos, responsável por número bem significativo de overdoses acidentais. Então, até que ponto isto deveria ser motivo para estampar as roupas de uma marca cuja proposta recorrente é inovação e diversão? Claro que acredito que a intenção de ambos os casos não foi ofender alguém ou algo, mas acho que atualmente é preciso ter cuidado com o que falamos e escrevemos, porque alguém pode interpretar de algum modo que pegue mal.

Por outro lado nem tudo tem sido o tal close errado. Em tempos de (alguns casos) ignorância quanto ao papel social da moda, a Dior veio e jogou na cara que:


Alguns podem dizer "Grande coisa, só uma camisa com uma frase e pronto. E daí?". E daí que a Dior pela primeira vez na vida tem uma estilista, a italiana Maria Grazia Chiuri, o que é muito significativo quando você pensa num mundo em que as mulheres ainda não conquistaram os mesmos espaços em altos postos com os homens. 

Além disso, não sei se é muito otimismo da minha parte, mas acho que incomodar e provocar reflexões sobre pautas importantes pode produzir grandes consequências e até mudar comportamentos. O jovem de hoje, por exemplo, prefere colecionar experiências em vez de ter uma bolsa de grife, porque são coisas que realmente não se pode comprar, é preciso vivê-las. Por conta disto, as marcas têm vendido estilos de vida e contado histórias, não são somente espaços (no caso de lojas físicas) que vendem roupa (bolsa, acessório, calçado, o que for).

A sustentabilidade vem sido tema frequente de debates, o tal consumo consciente é uma "corrente" que está ganhando cada vez mais espaço, porque a moda anda colada com os fatores que falei acima (política, economia, cultura...) e é por isso que acredito que ela tem sim papel social. Pode divertir, mas com moderação.

Mas...

isso é apenas a minha opinião. :)

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